Limiar ventilatório e variabilidade da freqüência cardíaca em adolescentes








Em teste de esforço físico com aumento progressivo da carga de trabalho, a produção de energia, em intensidades até aproximadamente 50 a 60% do pico de consumo de oxigênio (VO2pico), provém redominantemente do metabolismo aeróbio. Com o aumento da demanda metabólica, mediante elevação da intensidade de esforço físico, o metabolismo anaeróbio passa a suplementar a produção aeróbia de energia. A determinação da intensidade de esforço físico em que ocorre a transição aeróbia-anaeróbia no metabolismo muscular tem grande importância no campo da fisiologia do exercício, sendo amplamente utilizada para a avaliação da aptidão física direcionada aos trabalhos prolongados, a prescrição de intensidades dos exercícios aeróbios e a monitoração de modificações em indicadores aeróbios induzidos por programas de treinamento.

Os métodos tradicionalmente empregados para identificar esta transição no metabolismo muscular são as análises da concentração sanguínea de lactato e das trocas gasosas respiratórias(6-8), que permitem identificar o limiar de lactato (LL) e o primeiro limiar ventilatório (LV1), respectivamente. No entanto, recentemente, outros
métodos não-invasivos e mais acessíveis têm sido propostos para identificar a intensidade de esforço físico em que ocorre a transição aeróbia-anaeróbia(9-12). Entre os métodos alternativos disponibilizados encontra-se a análise da variabilidade da freqüência cardíaca.

A análise da VFC permite quantificar a modulação do sistema ervoso autônomo na freqüência de disparo do nodo sinoatrial(20). Estudos utilizando a VFC em esforços físicos incrementais têm procurado demonstrar que a modulação parassimpática tende a diminuir progressivamente até sua completa retirada em aproximadamente 50 a 60% do VO2pico (21-24). Experimentos desenvolvidos por Tulppo et al.(16,17) e por Yamamoto et al.(13,14) sugerem que a intensidade de esforço correspondente ao término da retirada vagal e ao início da participação mais significativa da modulação simpática coincide com LV1. No estudo de Lima e Kiss(19), o LL foi comparado
com a intensidade de esforço físico em que encerrou a retirada vagal, denominada pelo autor de limiar de variabilidade da freqüência cardíaca (LiVFC). Verificou-se coincidência entre o LL e o LiVFC, oferecendo indícios da ocorrência de uma possível relação causal entre os eventos autonômicos e metabólicos.

Informações associadas à VFC em diferentes condições e patologias geralmente têm sido observadas utilizando métodos matemáticos lineares(20,25). Entretanto, estudos que procuraram envolver os métodos de análises lineares em exercício físico encontraram resultados inconsistentes(26-28). A plotagem de Poincaré, método não-linear, oferece informações úteis com relação à modulação autonômica cardíaca durante a realização de esforços físicos que não são facilmente detectadas por análises lineares(29,30) e, por meio da utilização desta análise, constatou-se que pode ser possível identificar o LL(19). 

O objetivo do presente estudo foi identificar o LiVFC, mediante análise quantitativa da plotagem de Poincaré, e compará-lo com a ocorrência do LV1 em uma amostra de adolescentes saudáveis de ambos os sexos. A hipótese do presente estudo é de que as respostas autonômicas cardíacas durante o esforço físico incremental estão associadas às respostas metabólicas e ventilatórias que ocorrem na transição da produção de energia pelo metabolismo muscular. Sendo assim, a análise da VFC pode ser um método alternativo para identificar esta transição.

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